Criei esse blog para servir de "diario" do meu doutorado. Colocarei aqui livros que estou lendo, sites, artigos, etc. O espaço esta aberto para discussoes, entao sinta-se livre para dar sua opiniao, sugestao de leitura, entre outras coisas.
domingo, 27 de março de 2011
Filme Express, breves comentarios sobre 3 filmes : 

L'aigle des mers Poster

Mais um classico de piratas/herois com Errol Flynn

A trilha foi composta por um dos três compositores de maior influencia do "periodo classico" : Erich Wolfgang Korngold. A utilizaçao da musica é bem classica, claro (leitmotifs, caracterizaçao de lugar, direçao de atençao, etc). O filme poderia servir mesmo como um modelo da trilha sonora classica e suas convençoes construidas nos anos 30 e executadas à exaustao nos anos 40. Korngold influenciou muitos compositores importantes de musica de filme, como por exemplo (30 anos mais tarde) John Williams (em uma sequencia, quando os "piratas" escapam do navio espanhol, é possivel mesmo escutar dois motivos que John Williams usa em toda a saga Star Wars). 



Composta por David Raksin, o filme tem umas das trilhas sonoras de maior sucesso da historia do cinema. David Raksin faz parte também de uma segunda geraçao de compositores importantes e influentes, tanto pela trilha de Laura, mas também por sua "linguagem musical" mais moderna.

A trilha sonora de Laura contem um so tema musical : o tema Laura. O tema ajuda a criar a obsessao pela personagem Laura, a substituindo, tomando seu lugar em grande parte do filme. A musica ajuda bastante a narrativa, que tem varias falhas. O tema ficou muito conhecido, ganhando letra e virando single. Ele foi extremamente importante para a industria do cinema, que viu essa possibilidade de vender o filme "sem o filme". Dai em diante, houve uma ploriferaçao de temas principais, que eram cançoes ou que virariam cançoes para serem vendidas como discos. 

A trilha de Laura foi inovadora, mostrando novos caminhos para a utilizaçao do material musical e da "aplicaçao" da trilha (mesmo contendo todas as outras convençoes da trilha sonora classica).



A trilha foi composta por Miklos Rozsa. Outro compositor da "segunda geraçao" de compositores influentes e com "novas linguagens" musicais (musica atonal, etc). 

Outro ponto de inovaçao na utilisaçao da trilha sonora. A musica começou a "circular" a narrativa, quase funcionando como um agente presente e ativa da narraçao (nao como Laura, mas fazendo parte da estrutura do filme). Demorou a fazer escola, mas foi bastate influente também. 


Se nao me engano, boas analises desses filmes podem serem lidas no livro Settling the Score... bom, na verdade, quase todos os livros sobre musica de filme, uma hora ou outra, vao falar desses filmes...

Abraços

CH
quarta-feira, 16 de março de 2011



O primeiro filme deu muito o que falar, saindo mesmo com o carater de documentario (lembro de amigos falando que era "o filme proibido" sobre a policia do Rio... o filme vazou e vendeu muitas copias piratas antes mesmo do lançamento nos cinemas por conta dessa historia "de documentario"). Esse lado "documentario" também é explorado no segundo filme (mesmo com o aviso logo no começo dizendo que tudo é uma obra de ficção, mesmo que alguns acontecimentos possam ser verdade, ou possiveis, etc). Isso ja estimula a imaginaçao do espectador que ja antecipa algumas relações do filme com a realidade.

A historia é interessante, e claro, tudo que se trata de corrupçao, intrigas e teorias conspiratorias é sempre interessante e instigante. Amigos que viram o filme me falaram que ele "retrata a realidade" ou "é isso ai mesmo que acontece no Rio" etc. O filme é contruido para causar essa impressão. Partindo da historia, claro, mas seus recursos narrativos contribuem para esse julgamento.


A primeira coisa que me saltou aos olhos foi a camera e seus movimentos. Ela é utilizada em grande parte do filme como "camera no ombro" ou seja, aquela camera que nao enquadra "direito" ou que fica "tremendo". Esse tipo de filmagem é bem caracteristica de documentarios, ou melhor, de documentarios "jornalisticos" (e de alguns outros generos também, como o filme de familia). é esse tipo de conotação que Padilha (que tem um historico importante como documentarista) projeta nessas sequencias de "camera no ombro". A camera esta ali, ela faz parte do que esta acontecendo, ela é uma testemunha (privilegiada e participativa) de algum evento. Consequentemente, nos somos testemunhas também, porque nos enxergamos o que a camera nos mostra. Esse movimento de camera se enquadra perfeitamente na tematica do filme (da denuncia da "realidade"). Estava esperando algum sangue "pular" na camera (como acontece em grande parte de filmes de guerra americanos, ou de carater documental, ou jornalistico), felizmente Padilha nao vai tao longe.

é interessante notar que a camera so fica "parada", ou faz travelings (aqueles movimentos suaves para os lados, para traz, para frente) em momentos de espetaculo, ou de pouca relaçao com a "realidade". A camera "jornalistica" mostra planos médios, ou de grande zoom, mostrando o torço da pessoa, ou somente o rosto (ou partes dele). A camera espetaculo, mostra tudo o que compoe a cena, todo o campo. Exemplos : quando o Capitao Nascimento fala com a tropa (e a camera mostra os movimentos coreografados dos policiais),o tempo que passa, o discurso no final, as imagens "de vista" que sobrevoa Brasilia... entre outras.

A musica também ajuda nessa "vulgarizaçao" dos acontecimentos. O filme começa com a cançao "Tropa de Elite" do Tihuana, que ja havia sido utilizada como trilha do primeiro filme. Ela acompanha toda uma sequencia que recapitula o primeiro filme. Cançoes servem como um ativador de tempo, criando uma especie de efeito video clip, onde o tempo pode passar mais rapido (a musica serve mesmo como um catalizador de acontecimentos). Cançoes também nos remetem ao dia a dia. No cinema, o que ela "acompanha" passa a ter um carater de cotidiano, de algo que nao é especial, mas de algo palpavel e possivel.

A cançao ainda ajuda a popularizar o filme, pois tem uma facil comercializaçao e difusao (radio, etc). E como a associaçao ja é bem forte, onde a "musica vai, o filme vai junto".

A trilha sonora é utilizada de maneira bem classica, e mostrando influencias de musica pop (pela instrumentaçao e forma), eletronica (também pela instrumentaçao) e mesmo a trilha classica (orquestral). Essa mistura, ou amalgama (pop influenciando filme, e filme influenciando pop) é uma tendencia vinda principalmente dos anos 60, 70 e uma quase generalizaçao à partir dos anos 80. Mas a utilizaçao do material musical ainda é bem classica. O ponto forte é a utilizaçao da guitarra eletrica com uma distorçao pesada em momentos de açao e tençao. A guitarra faz alguns sons curtos e graves, fazendo (imitando o ritmo de ) uma especie de respiraçao ofegante. Essa "respiraçao" percebida na musica se reflete no espectador, e influencia sua maneira de perceber e julgar uma cena. O espectador é capaz de perceber essa respiraçao, mas ela também é capaz de induzi-lo a respirar assim também (principalmente nas salas de cinema, onde os graves são mais potentes... na maioria das vezes os graves "nao sao ouvidos pelos nossos ouvidos", e sim pelo nosso corpo, o que gera desconforto). Cinema é respiração, e o filme trabalha isso muito bem... criando tensão e resolução.

No terço final do filme, assim que o filho do Capitao Nascimento recebe um tiro, o filme meio que se perde. A fotografia mais "natural", justamente de carater jornalistico se perde, e ele adota conveçoes hollywoodianas muito fortes. O filme passa a ficar azul e laranja (como ja mostrei aqui). O que estou começando a achar insuportavel. O roteiro se perde um pouco, deixando dialogos e ações meio obvias (a velha formula Hollywoodiana de "açao e consequencia"), e o discurso do final do filme (e sua consequencia) é meio inesplicavel...

Os créditos finais sao acompanhados de mais uma cançao : O Calibre, dos Paralamas do Sucesso. Cançoes nos créditos finais costumam trazer em sua letra um resumo da ideia geral do filme. Isso é bem caracteristico do cinema Hollywoodiano onde tudo deve estar claro e motivos sao repetidos à exaustao (se alguem ainda tem alguma duvida sobre o carater de denuncia do filme, com essa cançao no final ela nao existira mais... assim se espera).

Nao posso esquecer da voz off do Capitão Nascimento que narra a historia, mais um motivo que remete ao documentario. 

Padilha usa muitos recursos classicos Hollywoodianos em Tropa de Elite, o que pode justificar o sucesso de bilheteria do filme. Padilha recentemente recebeu um "convite" para dirigir o remake de Robocop nos EUA (frutos de suas "tecnicas" hollywoodianas ?). 

No geral é um bom filme, mas nao o bastante para ser o filme brasileiro de melhor bilheteria da historia do nosso cinema Br.

Abraços

CH
sábado, 5 de março de 2011
Outro dia fui ao cinema ver Black Swan (2010) de Darren Aronofsky.

Esse é o filme mais falado dos ultimos meses. Criticas brotaram em toda a internet. Nao descreverei o filme aqui, vocês podem achar otimas criticas, com boas descriçoes no google. Aqui, darei a minha impressao e farei uma leve analise, baseada no que ainda me lembro do filme.

Discordo da grande parte das criticas que dizem que o filme nos faz  "mergulhar" nos "pensamentos internos", ou no "subconsciente" da personagem de Natalie Portman (que por sinal, é um dos pontos fortes do filme). Proponho um "culpado" : a trilha sonora. 

Vamos do começo : os sons do filme sao muito bem feitos, e eles sim nos ajudam a "mergulhar" na personagem. Os sons de asas batendo, vozes, etc, que ela "escuta", ou que fazem parte de suas alucinaçoes sao muito bem empregados, e faz com que o espectador compartilhe ou perceba esse lado "esquizofrenico" da personagem. Esses "sons internos subjetivos", ou seja o sons "da cabeça" de um personagem sao usados desde os tempos do "cinema mudo" (a musica representando estados de espirito internos dos personagens). Até ai um otimo recurso, mas nada novo. 

A trilha sonora foi composta por Clint Mansell. Ele utiliza como material de base a musica original do Ballet de Tchaikovski (como ja era de se esperar). Para o filme, Mansell rearranja varias partes do Ballet, distorcendo e manipulando o material musical original. Algumas cues foram compostas originalmente para o filme também. 

Explico porque acho que a musica nao colabora com o estado psicologico da personagem, pelo menos por grande parte do filme :

Nos dois terços iniciais do filme, quando a personagem é apresentada, e onde se passam varias de suas alucinaçoes (os sons de asas, etc) a musica tem muitas resoluções. Resoluções harmonicas e de forma, no sentido mais "classico" da harmonia tradicional. Para você leitor que nao conhece teoria musical, nao se aflija.

Como ja disse por aqui, todos nos somos experts em musica, principalmente em nossa musica tonal ocidental. Não precisamos ter o conhecimento explicito, para conhecermos e reconhecermos o que acontece "implicitamente" na musica. O filme nos apresenta uma personagem com alucinaçoes, paranoias, e esquizofrenias. Entao o filme teria que representa-la assim. O filme é bem sucedido em fazer essa representação usando todos os seus outros recursos "imperceptiveis", como fotografia, sons, montagem, etc, e alguns mais explicitos como as imagens (suas visoes, fantasias, etc.). Mas para nos convercer de maneira mais precisa esse estado psicologico da personagem, a musica nao poderia ter ficado de lado. Como diria Donnelly (2005), a musica é o subconsciente do filme (não que eu concorde com esse ponto de vista, mas nesse caso é uma boa metafora).

Desde o "nascimento da linguagem" musical empregada em filmes como a conhecemos, a musica atonal (ou serial, etc) representa estados mentais alterados. E isso tem um porque : sistemas atonais sao extremamente instaveis (ainda mais para um publico nao acostumado à escutar esse "tipo" de musica). A instabilidade é o ponto principal da musica atonal. Sem nenhuma referencia (tonal) o auditor fica perdido, nao consegue antecipar eventos futuros, e isso cria tensao, instabilidade e estranheza. Tudo o que gostariamos de experienciar em Black Swan.

Bom, isso nos dois terços iniciais do filme. Ja no final o compositor usa e abusa de climaxes musicais. O climax por si so é uma forma muito instavel, podendo ter alternancias de dinamica, sons mais altos, agudos, etc... tudo isso cria tensao, instabilidade e estranheza também. Ponto para a musica, que transforma o final do filme em uma alegoria de alucinaçoes, delirios, etc.

Nao me intendam mal, Black Swan é um otimo filme, mas sua musica nao o deixa ser um classico ou algo que ficara gravado em nossa memoria por muito tempo. 

Indico assisti-lo no cinema, onde o som é bom, porque esperar para ver em DVD pode ser muito decepcionante. Pois o som em casa nao tem o volume (a presença) que encontramos nas salas de cinema.

Abraços

CH  

quarta-feira, 2 de março de 2011
Settling the Score: Music and the Classical Hollywood FilmO livro Settling The Score : Music and the Classical Hollywood Film (1992, Kathryn Kalinak) é um otimo livro sobre a utilizaçao da musica no periodo classico do cinema Hollywoodiano. A autora parte da historia da musica no cinema, assim como modos de produçao para estabelecer os moldes classicos da musica de filme. Ela toma os anos 30 como a gênese de uma tradiçao (da contruçao de convençoes : a musica oferecendo continuidade ao filme ; a musica em resposta a açoes da narraçao ; criaçao de humor e emoçao ; a musica exprimindo sentimentos internos ; musica subordinada ao dialogo ; musica em situaçoes de espetaculo ; açoes que justificam a presença nao-diégética da musica ; idoma do romantismo tardio ; utilizaçao de Leitmotiv, ou temas associativos), e analisa varios filmes que se enquandram nela. Com 4 analises pontuais a autora mostra algumas "evoluçoes" (ou "violaçoes") e a "retomada" desse sistema.

Livro muito sério, de discurso quase neutro (quase todos os livros de musica de filme "tomam o lado" dos compositores), e com otimas analises.

Recomendo a leitura. O livro nao foi escrito estritamente para um publico com formaçao musical, entao a leitura é leve e pode ser feita também por pessoas sem esse tipo de formaçao.  

Abraços

CH
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